Tatuagens: a fala através do corpo

Assim como um gesto, uma palavra ou uma conduta são demonstrações da subjetividade de uma pessoa, a tatuagem é também uma espécie de relato que marca determinadas etapas da vida do sujeito. É um sintoma social, uma nova modalidade de arte que pode representar lutos, prazeres, ou objetivos a cumprir.
É um tipo de discurso, uma forma de dar voz a si mesmo através do corpo, com determinadas funções para o psiquismo individual. Por trás desse ato, pode estar a procura pela compensação de perdas, por um meio de expulsão de afetos e desejos. Afinal, quantas declarações, nomes e retratos vemos cotidianamente marcados a tinta nos corpos das pessoas?
A prática aparece, ademais, como um emergente da devoção pela figura imposta por nossa sociedade, que promove a ideia do corpo como um objeto a ser produzido e trabalhado, uma escultura inacabada, sempre sujeita ao aperfeiçoamento.
A tatuagem é também um bem de mercado, mais uma representante do atual consumismo. A moda está potencializada pelos meios de comunicação e há hoje tatuagens mais caras, mais exóticas, mais glamorosas, assim como tatuadores mais reconhecidos. Podemos tomar como exemplo o programa Miami Ink, transmitido pelo canal People & Arts, onde famosos artistas do ramo tatuam pessoas igualmente famosas, que contam, paralelamente, suas histórias de vida e o motivo que os levou ao local.
A realização de uma tatuagem implica uma série de atividades prévias: a escolha da imagem, da parte do corpo, das cores, do tatuador. É uma decisão muitas vezes difícil e demorada: o desenho que fica plasmado na pele conta histórias, traz lembranças de momentos vividos, de pessoas queridas e é dificilmente removível.
A tatuagem fere, rasga, paradoxalmente colore, pinta, destaca certas partes do corpo e, o que é mais importante: marca. Em tempos pós-modernos, onde tudo é efêmero, tudo é líquido, tudo é volátil, as pessoas necessitam cada vez mais de algo que perdure ao longo dos anos. E a tatuagem é justamente uma imagem, um símbolo que não se apaga tão facilmente, uma alegoria que, a maioria das vezes, leva consigo um significado tão profundo quanto as camadas de pele que a agulha tem de atravessar para desenhá-la.




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